China retoma compras maciças de soja americana após trégua com Trump, em movimento inédito em dois anos
Pequim adquire dezenas de cargas do grão dos EUA, cumprindo parte do acordo firmado em outubro, mas Brasil segue como principal fornecedor do mercado chinês apesar da guinada americana

Um dos desdobramentos mais concretos da trégua comercial fechada entre Donald Trump e Xi Jinping em outubro se materializou em novembro de 2025, quando a China realizou suas maiores compras de soja americana em mais de dois anos. Segundo reportagem da Forbes, empresas chinesas assinaram contratos de compra que, em poucos dias, somaram volumes avaliados em centenas de milhões de dólares, revertendo um padrão de boicote que perdurava desde a escalada da guerra comercial no início do ano.
Trump chegou a afirmar publicamente que, como parte das negociações com Pequim, ficara acertada a compra de 12 milhões de toneladas de soja pela China ao longo do ano, um volume expressivo mas ainda distante dos patamares históricos anteriores à guerra comercial, quando o país asiático era, disparadamente, o maior comprador mundial do grão americano. Analistas do setor agrícola descreveram o movimento como um gesto de boa vontade chinesa, calculado para sustentar a trégua comercial sem, contudo, reverter de forma definitiva a diversificação de fornecedores que Pequim vinha promovendo havia anos.
Brasil mantém liderança apesar da guinada
Apesar da retomada das compras americanas, o Brasil permaneceu como o principal fornecedor de soja para o mercado chinês, com projeção de embarque de cerca de 100 milhões de toneladas no ano, segundo dados do Ministério da Agricultura citados pelo Estadão. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo avaliaram que o movimento chinês em direção aos EUA teria impacto limitado sobre o mercado brasileiro no curto prazo, já que a compra americana ocorreu majoritariamente na entressafra brasileira, período em que o Brasil naturalmente reduz suas exportações.
Uma peça da engrenagem geopolítica
O episódio ilustrou como commodities agrícolas se transformaram, ao longo de 2025, em instrumento central da diplomacia comercial entre as duas maiores economias do mundo. A soja, em particular, carregava um simbolismo especial: fora um dos primeiros e mais visados alvos das retaliações chinesas na primeira guerra comercial da era Trump, em 2018, e sua reativação como moeda de troca em 2025 sinalizava a permanência desse padrão de barganha setorial nas relações bilaterais.
Fragilidade da trégua permanece
Analistas de mercado, contudo, mantinham cautela quanto à durabilidade do movimento. A compra de soja, embora expressiva, era vista como reversível a qualquer sinal de nova deterioração nas relações entre Washington e Pequim, especialmente diante da fragilidade já reconhecida do acordo firmado em outubro. Para o agronegócio brasileiro, o episódio de novembro funcionava como um lembrete de que, mesmo mantendo a liderança no fornecimento à China, o país permanecia vulnerável às oscilações da geopolítica comercial entre as duas superpotências, que podiam redesenhar fluxos globais de commodities de um mês para o outro.
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