Davos 2026 expõe economia global fragmentada, refém de juros altos e riscos geopolíticos

Fórum Econômico Mundial reúne líderes empresariais cautelosos diante de tarifas persistentes, tensões no Oriente Médio e corrida acelerada por investimentos em inteligência artificial

Por Renata Cavalcanti Souza· 05 de janeiro de 2026· 6 min de leitura
Davos 2026 expõe economia global fragmentada, refém de juros altos e riscos geopolíticos

Foto: Paulo Rená da Silva Santarém / Wikimedia Commons

A edição de 2026 do Fórum Econômico Mundial, realizada em janeiro nos Alpes suíços, expôs de forma inédita a fragmentação da economia global depois de um ano de guerra comercial e turbulências geopolíticas. Executivos, chefes de Estado e economistas presentes em Davos descreveram um cenário de crescimento ainda resiliente, mas cada vez mais dependente de fatores instáveis: tarifas americanas que, mesmo após rodadas de tréguas, permaneciam em patamar historicamente elevado, e um conflito latente no Oriente Médio que ameaçava, a qualquer momento, voltar a pressionar o preço da energia.

Segundo análise do ex-presidente do Banco Central brasileiro Roberto Campos Neto, publicada em coluna na Folha de S.Paulo a partir de suas impressões do fórum, a economia mundial atravessava um período de "transição estrutural", em que a antiga ordem de comércio multilateral cedia espaço a blocos econômicos mais fechados e a relações bilaterais negociadas caso a caso. Essa reconfiguração, segundo o texto, exigia das empresas e dos governos uma capacidade de adaptação muito maior do que a exigida em décadas anteriores de globalização mais previsível.

Cautela dos CEOs e alerta do JPMorgan

Reportagens da imprensa internacional destacaram o tom mais cauteloso adotado por executivos de grandes bancos e multinacionais presentes no evento. Um alerta divulgado por analistas do JPMorgan durante o fórum apontou riscos crescentes de uma "nova ordem global" mais instável, na qual decisões de investimento de longo prazo se tornavam mais difíceis diante da imprevisibilidade tarifária e da possibilidade de novos choques geopolíticos, incluindo tensões ainda não resolvidas envolvendo o Irã.

Inteligência artificial como contraponto de otimismo

Em contraste com o tom mais sóbrio sobre comércio e geopolítica, a corrida por investimentos em inteligência artificial e infraestrutura energética associada ao setor dominou boa parte das discussões em Davos, funcionando como o principal vetor de otimismo entre investidores. Executivos de tecnologia destacaram bilhões de dólares em compromissos de investimento em data centers e capacidade computacional, tema que, segundo analistas, ajudava a sustentar as bolsas globais mesmo em meio às incertezas macroeconômicas mais amplas.

Um mundo mais dependente de diálogo

O balanço geral do fórum, segundo análise publicada pela Gazeta Mercantil Digital, foi o de uma economia global "mais frágil, fragmentada e dependente de diálogo" do que em qualquer outro momento da década. Para economistas presentes, o desafio para 2026 seria conciliar juros ainda altos em boa parte do mundo desenvolvido, riscos geopolíticos não resolvidos e uma transição tecnológica acelerada, num contexto em que instituições multilaterais historicamente responsáveis por mediar conflitos comerciais pareciam cada vez mais enfraquecidas diante do unilateralismo das grandes potências.

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