Fed corta juros pela terceira vez em 2024, mas sinaliza cautela para o próximo ano

Banco central americano reduz taxa básica para faixa de 4,25% a 4,50% e projeta ritmo mais lento de cortes em 2025, à espera dos efeitos da política de Trump

Por Marcos Villela· 05 de dezembro de 2024· 6 min de leitura
Fed corta juros pela terceira vez em 2024, mas sinaliza cautela para o próximo ano

Foto: Paulo Rená da Silva Santarém / Wikimedia Commons

O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, decidiu na reunião de dezembro reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando o intervalo para 4,25% a 4,50% ao ano. Foi o terceiro corte seguido em 2024, movimento que já era amplamente esperado pelo mercado financeiro, mas que veio acompanhado de um recado incômodo: o comitê de política monetária (Fomc) projetou apenas dois cortes adicionais para 2025, número inferior ao que analistas vinham calculando meses antes.

A decisão, tomada por maioria e não por unanimidade, reflete a divisão interna sobre o ritmo ideal de afrouxamento monetário num momento em que a inflação americana ainda resiste acima da meta de 2% ao ano. O presidente do Fed, Jerome Powell, evitou comentar diretamente as promessas de campanha do presidente eleito Donald Trump, mas reconheceu que "algumas autoridades já começaram a incorporar hipóteses" sobre o impacto de possíveis tarifas e cortes de impostos nas projeções de inflação e crescimento.

Mercados reagem com cautela

A reação imediata dos mercados foi de recuo: as bolsas de Nova York fecharam em queda acentuada no dia da decisão, e o dólar se fortaleceu ante praticamente todas as moedas emergentes, incluindo o real brasileiro. Investidores interpretaram o tom mais duro de Powell como sinal de que o custo do crédito nos Estados Unidos deve permanecer elevado por mais tempo do que se esperava, pressionando economias que dependem de capital externo.

Para economistas ouvidos por veículos financeiros, o cenário de 2025 já nasce marcado pela incerteza. Embora a atividade econômica americana continue relativamente resiliente, com desemprego baixo e consumo aquecido, a chegada de Trump à Casa Branca em janeiro introduz uma variável difícil de modelar: tarifas generalizadas sobre importações, que podem reacender pressões inflacionárias justamente quando o Fed tentava consolidar a desinflação conquistada ao longo de dois anos de juros altos.

Efeitos sobre o Brasil e emergentes

No Brasil, a decisão reforçou a tendência de valorização do dólar e de aperto das condições financeiras externas, num momento em que o Banco Central brasileiro já promovia sua própria sequência de altas de juros para conter a inflação doméstica e a depreciação cambial. Analistas do mercado local avaliam que o "Fed mais hawkish" tende a limitar o espaço de manobra de bancos centrais de países emergentes, que precisam equilibrar o combate à inflação interna com a necessidade de manter a atratividade de seus ativos frente aos títulos americanos.

O episódio de dezembro de 2024, portanto, funciona como um prenúncio do que viria a definir grande parte do debate econômico mundial nos meses seguintes: a disputa entre a política monetária ortodoxa do Fed e a agenda comercial protecionista do novo governo americano, dois vetores que raramente andam na mesma direção e que já começavam a gerar ruído mesmo antes da posse presidencial.

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