Novo presidente do Fed, Kevin Warsh, surpreende mercado com tom hawkish em meio a nova tarifa contra o Canadá

Warsh adota discurso duro contra a inflação, na contramão da expectativa de política monetária mais frouxa alinhada a Trump, enquanto EUA preparam nova tarifa de 50% sobre produtos canadenses

Por Caio Fernandes Guedes· 05 de junho de 2026· 7 min de leitura
Novo presidente do Fed, Kevin Warsh, surpreende mercado com tom hawkish em meio a nova tarifa contra o Canadá

Foto: Wolfgang Weiser / Pexels

A troca de comando no Federal Reserve, efetivada em 2026 com a posse de Kevin Warsh na presidência da instituição, produziu em junho um resultado inverso ao que boa parte do mercado financeiro esperava. Indicado por Donald Trump com a expectativa de que adotaria uma postura mais tolerante à inflação e favorável a cortes agressivos de juros, Warsh surpreendeu analistas ao assumir, em seu primeiro grande pronunciamento público, um tom notavelmente "hawkish" — ou seja, linha-dura no combate à inflação —, elevando as expectativas de mercado quanto à possibilidade de os juros permanecerem estáveis ou até subirem, na contramão do que o próprio presidente americano vinha defendendo publicamente havia meses.

A ata da reunião de junho do Comitê Federal de Mercado Aberto, divulgada semanas depois, confirmou que as preocupações das autoridades do Fed com a inflação haviam aumentado significativamente, reflexo direto dos efeitos persistentes do choque energético provocado pela guerra no Oriente Médio, que já se estendia por quatro meses. A postura mais dura de Warsh, ainda que tecnicamente independente do governo, gerou desconforto entre assessores da Casa Branca, que esperavam maior alinhamento do novo dirigente com a agenda de juros baixos defendida por Trump desde o início de seu mandato.

Tarifa de 50% sobre o Canadá

No plano comercial, o mês também foi marcado pela preparação, por parte do governo americano, de uma nova rodada de tarifas de 50% sobre uma ampla gama de produtos canadenses, medida formalmente anunciada em julho mas já amplamente antecipada pelo mercado ao longo de junho. A escalada com o vizinho norte-americano representava uma reversão de entendimentos anteriores e reforçava a percepção de que a política comercial de Trump seguia imprevisível mesmo em relação a parceiros historicamente próximos, como o Canadá.

Ipea analisa cenário do segundo trimestre

Em sua Carta de Conjuntura de junho, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) dedicou uma nota específica à análise da economia mundial no segundo trimestre de 2026, destacando a combinação inédita de fatores que pressionavam simultaneamente o cenário global: um conflito geopolítico ainda ativo no Oriente Médio, uma mudança de comando no banco central mais influente do mundo com resultado contrário ao esperado, e a continuidade de tensões comerciais bilaterais mesmo após meses de tréguas pontuais entre as principais economias.

Mercados reavaliam expectativas

A combinação desses fatores levou investidores a reavaliar significativamente suas expectativas para a política monetária americana no segundo semestre de 2026, com contratos futuros de juros passando a precificar uma probabilidade bem menor de cortes agressivos do que se supunha meses antes. Para economias emergentes, incluindo o Brasil, o cenário de um Fed potencialmente mais duro sob a batuta de Warsh representava um risco adicional de aperto nas condições financeiras globais, justamente num momento em que o mundo ainda lidava com os efeitos inflacionários do choque energético do Oriente Médio.

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