Bibliotecas e ruas: como Brasília descentralizou a cultura literária em dezembro
Projetos itinerantes levaram livros a regiões periféricas enquanto a Biblioteca Demonstrativa fechou o ano com programação sobre diversidade

Livros que saem do centro
Em dezembro de 2024, Brasília viveu um movimento silencioso, mas significativo, de descentralização cultural. Enquanto o calendário oficial de fim de ano concentrava atenções no Plano Piloto, projetos como o "Literatura na Bicicleta" levaram exposições itinerantes de livros a cidades da região norte do Distrito Federal, com parada marcada para o dia 6 de dezembro na Feira Modelo de Sobradinho, incluindo apresentações artísticas e uma pequena biblioteca ambulante que também passou por Sobradinho 2, Fercal e Planaltina.
A iniciativa dialoga com um problema histórico da capital: a concentração de equipamentos culturais — teatros, bibliotecas de grande porte, museus — no centro da cidade, distante da realidade de boa parte da população que vive nas regiões administrativas mais afastadas. Projetos itinerantes como esse tentam reduzir essa distância, ainda que de forma pontual.
"Levar o livro para onde o leitor está, e não esperar que ele venha até o livro, é uma inversão que muda a relação da comunidade com a leitura", afirmou um dos organizadores do projeto durante a atividade em Sobradinho.
Diversidade em pauta na Biblioteca Demonstrativa
No coração da cidade, a Biblioteca Demonstrativa Maria da Conceição Moreira Salles, ligada ao Ministério da Cultura, encerrou o ano com uma programação especial voltada à diversidade e aos direitos humanos, reunindo rodas de conversa, oficinas e mediações de leitura. Um dos destaques foi o encontro "Literatura e Identidades: entre o ontem e o agora", com a participação do escritor indígena Daniel Munduruku, que discutiu com o público brasiliense a relação entre memória, ancestralidade e produção literária contemporânea.
A programação reforçou o papel da biblioteca como espaço de debate público para além do empréstimo de livros — uma tendência observada em equipamentos culturais de todo o país ao longo de 2024, que passaram a incorporar mais debates temáticos em suas agendas de fim de ano.
Turismo literário e patrimônio
Paralelamente, seguiu em curso até dezembro a "Jornada Literária 2024: patrimônio e turismo", projeto que conectou roteiros pela arquitetura tombada de Brasília a atividades de mediação literária, propondo aos participantes uma experiência que uniu história urbana e criação textual. A iniciativa reforçou o caráter único da capital como Patrimônio Cultural da Humanidade, título concedido pela Unesco, ao mesmo tempo em que estimulou a produção literária local a dialogar com esse patrimônio.
Já no Paranoá, a Festa Literária local, realizada nos dias 14 e 15 de dezembro, reuniu autores da região, saraus e apresentações, consolidando-se como um dos poucos eventos literários de grande porte organizados fora do eixo central da cidade.
Para gestores culturais ouvidos ao longo do mês, o conjunto dessas iniciativas mostra que, apesar dos desafios orçamentários enfrentados por editais e fomentos culturais no DF, ainda existe um ecossistema ativo de agentes — bibliotecários, escritores, produtores culturais — dispostos a expandir o alcance da literatura para além do circuito tradicional, criando pontes entre o centro e a periferia da capital.
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