Entre recordes e crise: o retrato contraditório da saúde no DF em 2024
SES-DF registra alta de 18% na atenção primária, mas Ministério Público aciona governo por falhas na rede

Recordes na ponta do sistema
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) encerrou 2024 anunciando números expressivos: um aumento de 18% nos atendimentos da Atenção Primária à Saúde (APS) em relação a 2023, totalizando mais de 4 milhões de atendimentos individuais, sendo 3,7 milhões realizados nas 176 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) espalhadas pelo território. O balanço também contabiliza ações domiciliares e programas de busca ativa em regiões administrativas mais vulneráveis.
Parte desse desempenho é explicada pelo reforço financeiro recebido ao longo do ano: a SES-DF conquistou um incremento de quase R$ 140 milhões em repasses federais e estaduais, dos quais R$ 59 milhões já haviam sido empregados até dezembro, principalmente em ampliação de leitos — caso da UTI Coronariana do Hospital de Base, que teve sua capacidade dobrada.
"Esses recursos permitiram destravar gargalos históricos, sobretudo em cardiologia e em cuidados intensivos", disse um gestor da pasta durante apresentação do relatório quadrimestral à Câmara Legislativa do DF, em dezembro.
O outro lado da história
Apesar dos números de produtividade, o ano também foi marcado por um cenário mais duro para parte da população. Reportagem publicada no fim de dezembro relatou episódios de mortes de crianças associadas à demora no atendimento e descreveu uma "via-crúcis" enfrentada por pacientes em busca de consultas especializadas. Um dos fatores apontados como causa estrutural do problema é o déficit de aproximadamente 470 médicos na rede, especialmente em especialidades como pediatria e ortopedia.
Diante desse quadro, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) ajuizou ação contra o governo do DF e o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), organização social responsável pela administração de parte da rede hospitalar. A ação cobra medidas concretas para reduzir filas e aprimorar a gestão de unidades sob contrato com o instituto.
Um sistema em transição
O contraste entre os recordes de atendimento na atenção básica e as falhas na média e alta complexidade reflete, segundo especialistas em gestão pública em saúde, um sistema em transição: enquanto a APS colheu frutos de investimentos recentes em UBSs e equipes de saúde da família, a rede hospitalar segue pressionada pela demanda reprimida e pela dificuldade de contratação de especialistas em um mercado de trabalho médico competitivo.
"Não adianta ampliar a porta de entrada se o funil se estreita lá na frente, na consulta especializada ou na internação", avaliou uma pesquisadora da área de saúde coletiva ouvida sobre o balanço do ano.
Para 2025, a SES-DF prometeu concurso público para reforçar o quadro de médicos e ampliação de novos serviços de urgência, medidas que serão acompanhadas de perto pelo Ministério Público e pela sociedade civil organizada, que cobra resultados mais equilibrados entre os diferentes níveis de atenção do sistema público de saúde do Distrito Federal.
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