Tarifas de Trump sobre aço e alumínio colocam Brasil em rota de tensão comercial
Anúncio de tarifas recíprocas dos EUA mira também etanol e produtos agropecuários brasileiros, forçando Itamaraty a recalibrar a política externa

O anúncio que pegou Brasília de sobreaviso
No dia 9 de fevereiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que assinaria, no dia seguinte, uma ordem executiva impondo tarifas de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio, sem exceções por país. A medida reacendeu um capítulo já conhecido pelo Brasil, que em 2018, no primeiro mandato de Trump, havia negociado cotas para escapar de tarifação semelhante. Dessa vez, segundo apurou o G1, o governo brasileiro optou por aguardar o anúncio oficial antes de reagir publicamente, e o presidente Lula declarou que haveria "reciprocidade" caso os EUA de fato elevassem as tarifas sobre produtos brasileiros.
Etanol e agropecuária na mira
Dias depois, em 14 de fevereiro, o Valor Econômico revelou que a Casa Branca citava nominalmente o etanol e produtos agropecuários brasileiros na lista de itens sujeitos a tarifas recíprocas — uma resposta, segundo a administração americana, às tarifas que o Brasil aplica sobre o etanol importado dos EUA, hoje em 18%. Internamente, integrantes do governo brasileiro reagiram com cautela, mas nos bastidores a medida foi interpretada como um "chamado para negociar", ainda que nos termos impostos pelos americanos.
O etanol é um produto sensível para a diplomacia comercial brasileira: o país é o segundo maior produtor mundial do biocombustível, atrás apenas dos Estados Unidos, e mantém com Washington uma disputa tarifária que se arrasta desde 2015, quando o Brasil elevou a taxação sobre o etanol americano.
Recalibragem da política externa
A reportagem "Era Trump leva governo Lula a recalibrar política externa", publicada pelo Valor em 15 de fevereiro, descreveu como o Itamaraty, sob o chanceler Mauro Vieira, passou a tratar a "sobrevivência do sistema multilateral" como prioridade mais urgente do que as reformas na ONU que ocupavam a agenda em 2023 e 2024. Vieira afirmou que o "agravamento das desigualdades em todo o mundo suscita diferentes reações" e que o Brasil precisa se posicionar com pragmatismo diante do unilateralismo comercial americano.
Repercussão em Brasília
A Fundação FHC promoveu, em 26 de fevereiro, um debate reunindo analistas americanos e brasileiros para discutir "o que é real e o que é só retórica" na política externa de Trump. Os participantes, entre eles a professora Fernanda Magnotta, destacaram que a imprevisibilidade tarifária tende a se tornar uma ferramenta permanente de barganha geopolítica, e não um evento pontual — o que exige do Brasil uma postura diplomática mais ágil e menos dependente de acordos de longo prazo.
Impactos econômicos concretos
Para o setor siderúrgico brasileiro, terceiro maior exportador de aço para os Estados Unidos, a tarifa de 25% representa um risco direto a contratos que somam bilhões de dólares anuais. O Instituto Aço Brasil estimou perdas potenciais significativas caso a medida seja mantida sem exceções, e passou a pressionar o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio por uma resposta diplomática rápida, incluindo a possibilidade de acionar a Organização Mundial do Comércio.
Ao fim de fevereiro, o desfecho da disputa ainda era incerto, mas o mês deixou claro que a relação Brasil-EUA entraria em 2025 sob um regime de tensão comercial constante, testando a capacidade do Itamaraty de equilibrar pragmatismo econômico e defesa da soberania regulatória brasileira.
Gostou desta reportagem?
Assinar grátis