Tarifaço de Trump reacende incerteza sobre trajetória da Selic e da inflação no Brasil

Banco Central afirma que guerra comercial exige 'cautela' e gera dúvidas sobre a queda do IPCA, enquanto mercado financeiro revisa projeções no Boletim Focus

Por Fernanda Kelly Ribeiro· 05 de abril de 2025· 7 min de leitura
Tarifaço de Trump reacende incerteza sobre trajetória da Selic e da inflação no Brasil

Foto: Paulo Rená da Silva Santarém / Wikimedia Commons

Inflação de abril e o peso do cenário externo

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril de 2025, divulgado pelo IBGE, registrou alta de 0,43%, ligeiramente abaixo dos 0,56% de março. No acumulado do ano, a inflação chegou a 2,48%, enquanto em 12 meses o índice somou 5,53% — patamar ainda distante da meta central de 3% perseguida pelo Banco Central, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

O resultado veio em meio a um cenário externo turbulento, marcado pelo pacote de tarifas comerciais anunciado pelo presidente americano Donald Trump contra diversos parceiros, incluindo o Brasil. O chamado 'tarifaço' tornou-se o principal fator de instabilidade nas projeções macroeconômicas do país ao longo do mês.

Banco Central pede cautela

Em relatório divulgado em 29 de abril, o Banco Central afirmou que o tarifaço de Trump exige 'cautela' na condução da política monetária brasileira e gera 'dúvidas' relevantes sobre a velocidade de convergência da inflação à meta. O documento, que traz a percepção da autoridade monetária sobre as perspectivas para o segundo semestre, evidencia a dificuldade de calibrar a Selic em um ambiente de guerra comercial com efeitos ainda incertos sobre cadeias produtivas, câmbio e preços de commodities.

A taxa básica de juros, a Selic, seguia em trajetória de alta desde 2024, com o Comitê de Política Monetária (Copom) buscando conter a inflação persistente puxada por preços de alimentos, serviços e pelo câmbio pressionado.

Visões divergentes no mercado

Enquanto o Banco Central mantinha tom cauteloso, o banco Itaú Unibanco divulgou, em meados de abril, análise segundo a qual o impacto líquido do tarifaço sobre o Brasil poderia ser desinflacionário. A lógica: com barreiras comerciais elevando custos para outros países e desviando fluxos de comércio, o Brasil poderia se beneficiar de menor demanda global por commodities e de uma reorganização de cadeias de suprimento favorável a preços domésticos mais baixos. Com base nesse racional, o banco chegou a apontar a possibilidade de o Copom encerrar o ciclo de alta de juros já na reunião de maio.

O que diz o Boletim Focus

As projeções compiladas pelo Banco Central junto a instituições financeiras no Boletim Focus passaram por ajustes ao longo de abril. Analistas revisaram, ainda que marginalmente, as estimativas para PIB, inflação, Selic e câmbio, refletindo a incerteza gerada pelo cenário internacional. As expectativas para a inflação de 2025 permaneceram acima do centro da meta, ao passo que projeções para o dólar oscilaram junto às idas e vindas da política tarifária americana.

Impacto para o consumidor e as empresas

Para empresas exportadoras, especialmente do agronegócio e da indústria de transformação, o tarifaço representa risco direto de perda de competitividade em mercados como o americano. Já para o consumidor final, o principal canal de transmissão é o câmbio: uma eventual disparada do dólar por aversão a risco tende a pressionar preços de importados, combustíveis e insumos industriais.

Economistas ouvidos pela imprensa nacional avaliam que o segundo semestre de 2025 será decisivo para definir se o Brasil consegue navegar a guerra comercial sem sacrificar a meta de inflação, ou se o Banco Central terá de estender o ciclo de juros altos além do inicialmente previsto, com custos para o crescimento econômico.

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