Congresso derruba vetos de Lula à LDO e acirra crise com o Planalto
Sessão conjunta anunciada por Davi Alcolumbre durante a Marcha dos Prefeitos flexibiliza repasses a municípios em ano eleitoral

Brasília voltou a ser palco de um confronto institucional de peso em maio de 2026. O Congresso Nacional derrubou, em sessão conjunta convocada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, os vetos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia imposto à Lei de Diretrizes Orçamentárias. A decisão, anunciada durante a Marcha dos Prefeitos em Brasília, flexibiliza as regras de repasse de recursos federais a municípios justamente em um ano marcado pela proximidade das eleições gerais de outubro.
A derrubada dos vetos representa mais um capítulo da deterioração da relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Nos bastidores, auxiliares de Lula avaliam que a decisão de Alcolumbre foi articulada politicamente para fortalecer sua base entre prefeitos, muitos dos quais dependem de emendas e repasses discricionários para viabilizar obras e serviços antes do período eleitoral. Para o governo, a medida compromete o controle fiscal que a equipe econômica vinha tentando sustentar, especialmente após meses de pressão sobre o arcabouço fiscal.
A reação do Executivo não tardou. Ainda na mesma semana, o Palácio do Planalto passou a avaliar publicamente a possibilidade de recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra a derrubada dos vetos à LDO. Segundo fontes ouvidas por veículos de Brasília, duas estratégias estariam sobre a mesa: uma ação capitaneada pela Advocacia-Geral da União com argumentos estritamente fiscais, ou uma articulação política via bancada do PT no Congresso para tentar reverter parte dos efeitos práticos da decisão.
A crise ganhou contornos ainda mais delicados dias depois, quando Lula precisou fazer concessões diretas ao Congresso para tentar conter o desgaste com Alcolumbre. Segundo apurou a imprensa especializada em política, o presidente flexibilizou posições em outros vetos em tramitação como forma de evitar um rompimento mais amplo com o Senado, sinalizando que o Planalto reconhece a fragilidade de sua base de sustentação parlamentar neste momento pré-eleitoral.
O imbróglio orçamentário não é o único front de tensão. Na mesma semana, o noticiário político em Brasília também registrou avanços da oposição no Senado, com Alcolumbre dando andamento a uma PEC de autoria de parlamentares oposicionistas na Comissão de Constituição e Justiça. O senador Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, tem defendido um regime alternativo à CLT, no qual empregador e trabalhador poderiam negociar diretamente o valor da hora trabalhada — proposta que tensiona ainda mais o debate econômico e trabalhista no Congresso.
Em paralelo, o presidente Lula fez contato telefônico com o presidente da Câmara, Hugo Motta, agradecendo o apoio em votações recentes, num movimento que analistas leem como tentativa de blindar pelo menos uma das duas Casas legislativas antes da temporada eleitoral. Internamente, integrantes do PT e do próprio governo discutem se cabe algum tipo de resposta política mais dura às sucessivas derrotas no Congresso, chegando a cogitar mudanças em alianças dentro do Senado e da Câmara.
Para especialistas em relações Executivo-Legislativo consultados por publicações de Brasília, o episódio da LDO simboliza um recuo importante da capacidade de articulação do Planalto justo no momento em que o governo tentava reforçar o discurso de responsabilidade fiscal. A disputa deve seguir como um dos principais termômetros da relação entre os Poderes até o início do período eleitoral, quando o Congresso tradicionalmente reduz o ritmo de pautas mais sensíveis.
Enquanto o desfecho jurídico permanece incerto, prefeitos de todo o país comemoram a ampliação dos repasses, vista como um alívio bem-vindo em um momento de contas municipais apertadas. Já o mercado financeiro monitora de perto os desdobramentos, temendo que a flexibilização fiscal aprofunde o já debatido problema de sustentabilidade das contas públicas brasileiras no médio prazo.
Gostou desta reportagem?
Assinar grátis