Governo destrava pauta da Câmara ao retirar urgência do projeto que altera a escala 6x1

Enquanto isso, PEC do fim da jornada 6x1 completa um mês parada no Senado, e Congresso reage ao tarifaço de Trump contra a reforma tributária

Por Ricardo Bevilacqua· 01 de junho de 2026· 6 min de leitura
Governo destrava pauta da Câmara ao retirar urgência do projeto que altera a escala 6x1

O mês de junho de 2026 foi marcado por intensa movimentação no Congresso Nacional, com o governo federal recuando estrategicamente para destravar a pauta da Câmara dos Deputados. No dia 16, o Palácio do Planalto retirou a urgência constitucional do projeto que trata da escala de trabalho 6x1, medida que, segundo a assessoria legislativa do governo, vinha travando outras votações prioritárias havia semanas. A urgência constitucional obriga que a Câmara analise o texto em até 45 dias, sob pena de impedir a apreciação de qualquer outra proposta enquanto o prazo não se esgota — e foi justamente esse impasse que motivou o recuo.

A decisão, no entanto, não encerrou a discussão sobre a jornada de trabalho. A PEC que propõe o fim da escala 6x1, já aprovada em primeiro turno pelos deputados, chegou ao fim de junho completando um mês parada no Senado Federal. Segundo apuração da jornalista Samantha Klein, publicada em 28 de junho, o primeiro movimento efetivo da Casa deve ser uma sessão temática, reunindo representantes de trabalhadores e do setor empresarial, prevista para a primeira semana de julho. A demora reflete a resistência de parte do empresariado brasileiro, que teme impacto direto na produtividade e nos custos de contratação, e a cautela de senadores diante de um tema sensível às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.

Paralelamente, o Congresso Nacional articulou, ao longo do mês, uma série de derrotas ao governo Lula em resposta ao que parlamentares chamaram de "pauta-bomba" — um conjunto de projetos que, segundo líderes da base aliada, ampliaria excessivamente os gastos públicos. Como resultado das negociações, deputados e senadores avançaram em um aumento de verbas destinado a agências reguladoras e sinalizaram mudanças em um item específico da reforma tributária, mexendo em uma das principais bandeiras econômicas do atual governo. A equipe econômica do Ministério da Fazenda passou a atuar de forma mais incisiva junto às lideranças partidárias para reduzir o revés e excluir da pauta as medidas consideradas mais onerosas aos cofres públicos.

O pano de fundo dessas disputas internas é ainda mais complexo por causa da política externa. Em 26 de junho, o governo brasileiro classificou como politizado o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, avaliando que a medida de Washington mirava diretamente o calendário eleitoral do país. Representantes de Brasília e da capital americana seguiam, até o fechamento desta edição, em tratativas para tentar reverter ou amenizar o impacto das mais de duas mil exceções tarifárias anunciadas pelo governo Trump, que atingem setores estratégicos da economia brasileira, da agropecuária à indústria de transformação.

Analistas políticos ouvidos pela reportagem avaliam que o mês de junho consolidou um padrão de governabilidade mais desgastante para o Executivo, obrigado a negociar item por item com um Congresso cada vez mais assertivo em relação às prioridades orçamentárias. Para o cientista político Eduardo Malafaia, professor de uma universidade de Brasília consultado informalmente pela reportagem, "o enfraquecimento da base aliada no primeiro semestre de 2026 tende a se acentuar à medida que se aproxima o período eleitoral, tornando ainda mais custosa a aprovação de qualquer pauta considerada impopular junto ao empresariado ou aos próprios parlamentares". O desfecho da PEC da escala 6x1 no Senado, previsto para as primeiras semanas de julho, deve funcionar como um termômetro importante da capacidade de articulação do governo federal para o restante do ano.

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