Sequência de mortes na rede pública de saúde do DF leva governadora a admitir sucateamento

Celina Leão reconhece falhas após denúncias de negligência em partos; secretário de Saúde nega má conduta e aponta 'nuances médicas'

Por Patrícia Nogueira Ramalho· 14 de julho de 2026· 6 min de leitura
Sequência de mortes na rede pública de saúde do DF leva governadora a admitir sucateamento

Foto: RDNE Stock project / Pexels

Sequência de mortes na rede pública de saúde do DF leva governadora a admitir sucateamento

Uma série de denúncias de negligência médica na rede pública de saúde do Distrito Federal levou a governadora Celina Leão a reconhecer publicamente, em 15 de julho, o sucateamento do sistema. "Precisamos melhorar", declarou a governadora, que está em campanha à reeleição, após reportagens da TV Globo e do g1 revelarem cinco casos de suposta negligência em uma única semana, três deles relacionados a mortes durante ou após partos.

Os episódios ocorreram em diferentes unidades da rede, incluindo o Hospital Regional de Samambaia, e reacenderam o debate sobre a qualidade do atendimento obstétrico na capital federal. Familiares das vítimas relataram falta de acompanhamento adequado durante o pré-natal e demora no atendimento em situações de emergência.

Secretário nega negligência e cita 'nuances médicas'

Em resposta às denúncias, o secretário de Saúde do DF, Juracy Cavalcante, negou publicamente qualquer negligência institucional, afirmando que "a equipe tentou de tudo" nos casos relatados e que as mortes envolveram "nuances médicas" específicas de cada paciente. A presidente do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), Eliane Abreu, também se pronunciou, classificando os episódios como casos isolados e informando que a pasta abriu investigação interna para seis mortes registradas na rede pública ao longo do mês.

Falhas em sistemas de dados expõem fragilidades

Uma das denúncias mais graves revelou que profissionais de enfermagem não tinham acesso a dados de pré-natal das pacientes no momento do parto, o que teria contribuído para a falta de identificação precoce de riscos gestacionais. Uma enfermeira, ouvida sob condição de anonimato pela reportagem do g1, afirmou que a integração entre os sistemas de informação da rede está defasada, dificultando decisões clínicas rápidas em situações de urgência.

Especialistas em saúde pública ouvidos pela reportagem da revista Veja apontam que a crise expõe um problema estrutural mais amplo: a falta de investimento em tecnologia da informação, contratação de pessoal e manutenção de equipamentos nos hospitais regionais do DF. A reportagem também mostrou pacientes internados em cadeiras de rodas por falta de leitos disponíveis, cena que se tornou símbolo da precarização do atendimento na rede.

Repercussão política em ano eleitoral

A crise ganhou contornos políticos imediatos, já que Celina Leão disputa a reeleição em outubro. Adversários políticos usaram o episódio para questionar a gestão da saúde pública distrital nos últimos anos, enquanto aliados do governo defendem que os problemas são estruturais e antecedem a atual administração, exigindo soluções de médio e longo prazo.

A Secretaria de Saúde anunciou, ainda em julho, um plano emergencial de reforço de equipes em maternidades e hospitais regionais, além de auditoria externa dos protocolos de atendimento obstétrico. Entidades de defesa dos direitos das mulheres cobram, no entanto, medidas mais concretas e prazo definido para a apuração das responsabilidades nos casos já registrados.

Perspectivas para o segundo semestre

Com a investigação em curso e a pressão da opinião pública crescente, a rede de saúde do DF deve permanecer sob escrutínio nos próximos meses. O desfecho das apurações internas e a divulgação de resultados concretos de melhoria serão decisivos tanto para a confiança da população no sistema quanto para o desempenho eleitoral da atual gestão.

Gostou desta reportagem?

Assinar grátis