Arraiá da alma: sobre comunidade, solidão e o valor de pertencer
Aproveitando o clima junino, uma reflexão sobre solidão contemporânea e a importância de vínculos comunitários.
Junho traz bandeirinhas, quadrilha e aquele calor de festa comunitária que parece cada vez mais raro no dia a dia.
Aproveito o clima das festas juninas para falar sobre um tema sério: a epidemia de solidão que atravessa o mundo contemporâneo.
A OMS declarou a solidão um problema de saúde pública global, com impactos comparáveis ao tabagismo em termos de risco à saúde (OMS, 2023).
Vivemos mais conectados digitalmente e, paradoxalmente, mais isolados em vínculos reais e presenciais.
A The Atlantic já publicou extensivamente sobre como o tempo de tela substitui, sem compensar, o tempo de convivência genuína (The Atlantic, 2023).
Festas comunitárias como as juninas cumprem uma função psicológica importante: reforçam o senso de pertencimento a um grupo maior que nós mesmos.
Pertencer, segundo teorias clássicas de necessidades humanas, é tão fundamental quanto segurança física e alimentação (APA, 2021).
Quando esse pertencimento falta, o corpo reage: aumento de cortisol, pior qualidade de sono, maior vulnerabilidade emocional.
A pandemia acelerou um processo de isolamento que já vinha crescendo, e muitas pessoas ainda não recuperaram plenamente sua vida social (Nexo, 2022).
Recebo pacientes que sentem vergonha de admitir que têm poucos amigos próximos, como se isso fosse falha pessoal.
Na verdade, manter amizades na vida adulta exige esforço ativo, algo que a correria cotidiana costuma engolir.
A Psychology Today sugere que rituais simples e recorrentes, como um jantar mensal fixo com amigos, ajudam a sustentar vínculos ao longo do tempo (Psychology Today, 2021).
Talvez este junho seja um convite para reativar aquele grupo de amigos que só existe no WhatsApp esquecido.
Participar de festas comunitárias, mesmo pequenas, tem efeito mensurável sobre bem-estar subjetivo, segundo pesquisas de psicologia social (Nature, 2019).
Não precisa ser festa junina especificamente; pode ser culto, coral, time de futebol de várzea, curso de dança.
O importante é ter espaços regulares de encontro presencial, sem tela entre as pessoas.
Se você sente solidão neste momento, isso não é motivo de vergonha, é sinal de que uma necessidade humana básica não está sendo atendida.
Buscar terapia pode ajudar a entender padrões que dificultam a aproximação, como medo de rejeição ou perfeccionismo social.
Convido você a puxar uma quadrilha, nem que seja metafórica, e reconectar com alguém que faz tempo que não vê.
Fico por aqui, na torcida por um junho mais quentinho de gente de verdade.
Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.
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