O peso invisível do balanço de fim de ano

Por que dezembro nos convida a somar conquistas e falhas, e como fazer esse balanço sem se machucar.

Por Luísa Silva· 15 de dezembro de 2024· 6 min de leitura

Querido leitor, chegamos a dezembro e sinto o ar mudar: todo mundo parece obrigado a fazer um balanço da própria vida.

As redes se enchem de retrospectivas, e junto delas chega aquela vozinha comparando o que fizemos com o que "deveríamos" ter feito.

Um estudo publicado pela American Psychological Association mostra que dezembro concentra picos de ansiedade relacionados a expectativas sociais e financeiras (APA, 2023).

Não é à toa: estamos numa cultura que trata o calendário como um caderno de provas, e o Réveillon como a nota final.

Recebo muitos pacientes nesta época dizendo "esse ano não foi produtivo o suficiente", como se existisse uma régua universal de produtividade.

A reportagem da The Atlantic sobre "burnout de fim de ano" descreve exatamente esse fenômeno: exaustão emocional disfarçada de reflexão (The Atlantic, 2022).

Convido você a notar: balanço não precisa ser tribunal. Pode ser apenas observação, sem sentença.

Pergunte-se o que aprendeu, não apenas o que conquistou. Aprendizado também é resultado.

A Psychology Today lembra que autocompaixão em momentos de avaliação pessoal reduz sintomas depressivos (Psychology Today, 2021).

Isso não significa se eximir de responsabilidade, mas trocar a autocrítica áspera por uma escuta mais gentil.

Um exercício que costumo sugerir: escreva três coisas que você sustentou, mesmo pequenas, mesmo invisíveis para os outros.

Sustentar uma rotina de sono, manter um vínculo, continuar terapia — tudo isso é conquista, ainda que não caiba num post.

A Nexo já publicou sobre como a cultura da produtividade infinita adoece (Nexo, 2022), e dezembro é o ápice dessa cobrança.

Se este ano foi de perdas, permita-se nomeá-las sem pressa para "virar a página".

O luto, mesmo o simbólico, de projetos que não deram certo, merece espaço antes de qualquer meta nova.

Não é fraqueza sentir cansaço ao olhar para trás; é sinal de que você viveu, e viver dá trabalho.

Convido você a fechar o ano com uma pergunta mais gentil: o que eu quero levar comigo, e o que posso deixar para trás?

Não precisa ser epifania. Pode ser um sussurro de decisão, que amadurece aos poucos.

E se 2024 não coube num resumo de rede social, tudo bem. Vidas reais raramente cabem.

Fico por aqui, desejando que seu balanço seja feito com a mesma delicadeza que você teria com um amigo querido.

Sobre o colunista
Luísa Silva

Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.

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