A carga mental que ninguém vê: saúde mental e o Dia da Mulher

Sobre a sobrecarga invisível das mulheres e como ela afeta ansiedade, sono e autoestima.

Por Luísa Silva· 15 de março de 2025· 6 min de leitura

Março chega com o Dia Internacional da Mulher, e quero falar sobre algo que raramente aparece nos posts comemorativos: a carga mental.

Carga mental é o trabalho invisível de organizar, lembrar e antecipar as necessidades de uma casa, de filhos, de relações inteiras.

A socióloga francesa Monique Haicault cunhou o termo, e desde então pesquisas mostram como ele recai desproporcionalmente sobre mulheres (Nexo, 2022).

Não é sobre lavar louça ou não; é sobre ser a pessoa que sempre lembra que a louça precisa ser lavada.

A Piauí já trouxe reportagens sobre como essa sobrecarga cognitiva contribui para exaustão e ansiedade crônica em mulheres (Piauí, 2021).

Muitas pacientes chegam ao consultório dizendo que não sabem por que estão tão cansadas, já que "não fizeram nada de mais" no dia.

O problema é que gerenciar mentalmente dezenas de tarefas simultâneas consome energia mesmo sem esforço físico visível.

A American Psychological Association relaciona esse tipo de sobrecarga a maiores índices de burnout entre mulheres, especialmente mães (APA, 2023).

Existe também a cobrança estética e emocional: ser gentil, ser bonita, ser competente, ser mãe presente, tudo ao mesmo tempo.

A revista Nature publicou um estudo mostrando como a divisão desigual de tarefas domésticas impacta diretamente a saúde mental e o sono de mulheres (Nature, 2020).

Nomear a carga mental já é um primeiro passo terapêutico: tirar da esfera do "eu que sou desorganizada" para a esfera do "isso é estrutural".

Divisão de tarefas não resolve tudo sozinha, mas ajuda a diminuir a sensação de estar sempre no limite.

Terapia pode ajudar a identificar onde a culpa aprendida — "boa mãe", "boa esposa", "boa profissional" — está roubando espaço de descanso legítimo.

Autoestima feminina, segundo a Psychology Today, está fortemente ligada à permissão de descansar sem culpa (Psychology Today, 2022).

Convido as leitoras a perguntarem: o que eu faria hoje se não tivesse que provar nada a ninguém?

E aos leitores homens: perguntem à sua parceira, mãe ou colega, quanto ela carrega que vocês nem percebem.

Pequenas mudanças, como dividir literalmente o "lembrar", já aliviam parte dessa exaustão silenciosa.

Saúde mental feminina não se resolve com um dia comemorativo, mas com mudanças cotidianas sustentadas.

Se você é mulher e sente esse cansaço sem nome, saiba que ele tem nome, e tem origem, e pode ser trabalhado.

Fico por aqui, desejando um março mais leve para quem carrega tanto, tantas vezes sem ser vista.

Sobre o colunista
Luísa Silva

Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.

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