Carnaval não é obrigatório: sobre ansiedade social e pertencimento
Uma reflexão sobre a pressão de participar de festas e como lidar com ansiedade social nesta época.
Fevereiro traz o Carnaval, e com ele uma pressão silenciosa: se você não está curtindo, parece que está fazendo algo errado.
Recebo, nesta época, relatos de pacientes que se sentem culpados por preferir ficar em casa em vez de pular no bloco.
A ansiedade social, segundo a OMS, afeta significativamente a qualidade de vida e costuma ser subestimada em contextos festivos (OMS, 2022).
Existe uma expectativa cultural de que devemos ser extrovertidos por padrão, e quem não é sente que precisa se explicar.
A Psychology Today descreve introversão não como timidez, mas como uma forma diferente de processar estímulos sociais (Psychology Today, 2020).
Isso significa que multidões, música alta e contato constante podem ser prazerosos para uns e exaustivos para outros — e ambos são normais.
O Carnaval, com sua energia extrema, pode reativar ansiedades sobre pertencimento: será que sou aceito assim, quieto, no meu canto?
A Folha já publicou sobre o aumento de buscas por terapia relacionadas à "pressão de se divertir" em datas festivas (Folha, 2023).
Vale lembrar que pertencimento não exige performance constante de alegria.
Você pode amar seus amigos e ainda assim preferir vê-los em grupos pequenos, sem multidão.
Estabelecer limites nesta época — sair cedo, recusar convites, escolher blocos menores — é autocuidado, não antissociabilidade.
A pressão de "aproveitar enquanto é jovem" costuma esconder um medo maior: o de ficar de fora, o famoso FOMO (fear of missing out), termo já estudado pela Psychology Today (Psychology Today, 2021).
Só que existe também o JOMO, a alegria de ficar de fora, que merece mais espaço nas conversas sobre saúde mental.
Ansiedade social não é frescura; é uma resposta real do sistema nervoso a estímulos que ele interpreta como ameaça.
Respeitar seu ritmo em fevereiro pode significar dizer sim a um bloco e não a outros três.
Terapia cognitivo-comportamental tem se mostrado eficaz para lidar com ansiedade social, ajudando a reduzir pensamentos catastróficos sobre julgamento alheio (APA, 2021).
Se este Carnaval for de casa, filme e silêncio, ele não é menos válido que o Carnaval de rua.
Divertir-se não tem uma única forma certa, apesar do que as redes sugerem.
Convido você a escolher o Carnaval que cabe no seu corpo e na sua energia, não no feed dos outros.
Fico por aqui, na torcida por um fevereiro mais leve, dentro ou fora do bloco.
Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.
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