Descansar sem culpa: o direito ao ócio nas férias
Sobre a dificuldade de relaxar de verdade e como a cultura da produtividade sequestra até as férias.
Julho é mês de férias para muita gente, e mesmo assim recebo pacientes que não conseguem simplesmente descansar.
A culpa aparece rápido: "eu deveria estar aproveitando para adiantar trabalho", "deveria estar fazendo curso", "deveria estar produzindo algo".
A Psychology Today chama isso de "produtividade tóxica", quando o valor pessoal fica atrelado exclusivamente à produção constante (Psychology Today, 2022).
Descansar virou, para muita gente, uma tarefa a mais na lista, algo que precisa ser "bem feito" e "aproveitado ao máximo".
A The Atlantic já discutiu como o capitalismo tardio transformou até o lazer em performance a ser exibida nas redes (The Atlantic, 2021).
Postar as férias perfeitas vira mais uma fonte de comparação e ansiedade do que de descanso genuíno.
O ócio, segundo pesquisas em neurociência, é essencial para consolidação de memória e para processos criativos do cérebro (Nature, 2020).
Momentos de "nada fazer" ativam a chamada rede de modo padrão do cérebro, ligada à autorreflexão e à regulação emocional (Nature, 2020).
Ou seja, não fazer nada não é perda de tempo; é manutenção necessária da saúde mental.
Ainda assim, muitos de nós fomos educados para associar descanso a preguiça, e preguiça a fracasso moral.
A OMS já incluiu o burnout na Classificação Internacional de Doenças, reconhecendo o esgotamento crônico como fenômeno ocupacional sério (OMS, 2019).
Férias mal aproveitadas, cheias de culpa e checagem de e-mail, não recuperam esse esgotamento.
Um exercício simples: escolha um dia das suas férias para não ter absolutamente nenhum plano, e observe o desconforto que isso gera.
Esse desconforto é revelador: mostra o quanto desaprendemos a simplesmente estar, sem finalidade produtiva.
A Folha trouxe reportagem sobre o crescimento de retiros de "desconexão digital" justamente por causa dessa dificuldade coletiva de desligar (Folha, 2023).
Descansar de verdade envolve também desligar notificações, silenciar grupos de trabalho e resistir à tentação de checar e-mails "só rapidinho".
Terapia pode ajudar a identificar de onde vem a crença de que descanso precisa ser merecido ou justificado.
Você não precisa produzir nada durante as férias para merecer o direito de descansar.
O corpo e a mente pedem pausas reais, não pausas performáticas cheias de culpa.
Fico por aqui, desejando que este julho tenha muito ócio de verdade, sem prestação de contas a ninguém.
Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.
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