Domingo à noite: por que a volta à rotina dói tanto

Sobre a ansiedade antecipatória do início da semana e formas de suavizar essa transição.

Por Luísa Silva· 15 de agosto de 2025· 6 min de leitura

Agosto marca, para muita gente, o fim das férias e a volta a uma rotina que parece pesar mais do que antes.

Quero falar sobre um fenômeno bem específico: a angústia de domingo à noite, aquele aperto no peito antecipando a segunda-feira.

A Psychology Today descreve essa sensação como ansiedade antecipatória, uma resposta do corpo a um estressor ainda por vir (Psychology Today, 2021).

O curioso é que o corpo reage como se o estressor já estivesse acontecendo, ativando cortisol horas ou até um dia antes.

Pesquisas em cronobiologia mostram que esse padrão está ligado à forma como associamos determinados dias a determinadas cargas emocionais (Nature, 2019).

Se seu trabalho é fonte constante de sofrimento, a angústia de domingo pode ser um sinal importante, não apenas um desconforto passageiro.

A OMS já reconhece o esgotamento ocupacional como fenômeno de saúde relevante, ligado a ambientes de trabalho tóxicos ou excessivos (OMS, 2019).

Vale se perguntar: essa angústia é sobre o trabalho em si, sobre a falta de descanso real, ou sobre expectativas irreais que carrego comigo?

Pequenos rituais de transição ajudam: separar um tempo no domingo à tarde para organizar a semana sem culpa, por exemplo.

A Folha já publicou sobre como rotinas de "desaceleração gradual" no fim de semana reduzem o impacto da ansiedade antecipatória (Folha, 2022).

Evitar deixar tudo para domingo à noite — tarefas domésticas, planejamento, compras — também ajuda a diminuir a sobrecarga simbólica desse momento.

Cuidar do sono é outro ponto central: dormir mal no domingo amplifica a sensação de despreparo para a semana.

A terapia cognitivo-comportamental trabalha bastante com reestruturação de pensamentos catastróficos sobre a semana que se aproxima (APA, 2020).

Perguntar-se "o que realmente vai acontecer amanhã, e o que é só imaginação ansiosa?" pode trazer algum alívio prático.

Se a angústia é recorrente e intensa, vale conversar com um profissional sobre a relação com o trabalho de forma mais ampla.

Às vezes, o problema não é a segunda-feira, mas um emprego que já não faz sentido para quem você se tornou.

Outras vezes, é a falta de limites entre vida pessoal e profissional, que faz o descanso nunca ser completo.

Reconhecer o padrão já é meio caminho andado para começar a mudá-lo, seja com pequenos ajustes, seja com decisões maiores.

Você não está sozinho nessa aperto de domingo; é um dos sentimentos mais comumente relatados em consultórios de psicologia.

Fico por aqui, desejando domingos mais leves e segundas-feiras menos assustadoras.

Sobre o colunista
Luísa Silva

Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.

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