Meu corpo, meu inimigo? Sobre imagem corporal e autoaceitação

Uma reflexão sobre a relação conflituosa que muitos têm com o próprio corpo e caminhos possíveis de reconciliação.

Por Luísa Silva· 15 de abril de 2026· 6 min de leitura

Abril chega, e com ele conversas recorrentes em consultório sobre corpo, espelho e autoimagem.

Muitos pacientes relatam uma espécie de guerra interna com o próprio corpo, como se ele fosse um inimigo a ser vencido, e não um lar a ser habitado.

A insatisfação corporal, segundo a Psychology Today, afeta pessoas de todos os tamanhos, idades e gêneros, ainda que de formas diferentes (Psychology Today, 2022).

A cultura da dieta, presente há décadas, se reinventou nas redes sociais sob nomes como "lifestyle saudável", mas mantém a mesma lógica de vigilância corporal.

A The Atlantic já criticou como certas tendências de bem-estar escondem, sob discurso de saúde, práticas de restrição alimentar disfarçadas (The Atlantic, 2022).

Isso não significa que cuidar da saúde física seja problemático; o problema é quando essa busca vira obsessão que consome bem-estar emocional.

Transtornos alimentares têm um dos maiores índices de mortalidade entre condições psiquiátricas, segundo dados da OMS (OMS, 2022).

Frases aparentemente inocentes, como elogios focados exclusivamente em peso ou aparência, podem reforçar padrões de comparação prejudiciais.

A Nature publicou estudo mostrando como a exposição constante a imagens corporais idealizadas nas redes altera a percepção que temos do próprio corpo (Nature, 2021).

Filtros e edições de imagem criam um padrão de beleza inatingível mesmo para quem está nas fotos originais.

Recuperar uma relação mais saudável com o corpo passa por questionar de onde vieram as crenças sobre o que é um corpo "aceitável".

Muitas dessas crenças vêm da infância, de comentários familiares, de comparações precoces entre irmãos ou colegas.

Terapia pode ajudar a desconstruir essas camadas, separando o que é cuidado genuíno de saúde do que é perseguição estética internalizada.

O movimento de neutralidade corporal, alternativa ao "amor incondicional ao corpo" difícil de alcançar para muitos, propõe apenas respeito funcional ao corpo (Psychology Today, 2021).

Nem todo dia será de amor-próprio intenso, e tudo bem; a meta pode ser simplesmente coexistência pacífica com o próprio corpo.

Praticar atividade física por prazer e bem-estar, em vez de punição por ter comido algo específico, muda completamente a relação com o movimento.

Cercar-se de conteúdos diversos, com corpos variados nas redes sociais, ajuda a recalibrar o senso de normalidade visual.

Seu corpo não precisa ser perfeito para merecer cuidado, prazer e respeito.

Se a relação com seu corpo está gerando sofrimento intenso, buscar ajuda profissional é um caminho válido e necessário.

Fico por aqui, desejando que você consiga, aos poucos, tratar seu corpo como lar, não como inimigo.

Sobre o colunista
Luísa Silva

Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.

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