Maternidade real: sobre culpa, exaustão e amor imperfeito

Uma coluna sobre os sentimentos ambíguos da maternidade, muitas vezes escondidos atrás do Dia das Mães.

Por Luísa Silva· 15 de maio de 2025· 6 min de leitura

Maio chega com flores, cartões e a idealização do Dia das Mães, mas quero falar da maternidade que não cabe em cartão.

Muitas mães chegam ao consultório carregando culpa por sentirem raiva, cansaço ou até arrependimento em momentos pontuais da maternidade.

A Psychology Today aponta que sentimentos ambivalentes em relação à maternidade são comuns e não indicam falta de amor (Psychology Today, 2022).

A ideia do "amor materno instantâneo e incondicional" é mais mito cultural do que realidade psicológica consistente.

O apego, segundo pesquisas em desenvolvimento infantil, se constrói ao longo do tempo, com repetição, presença e reparação de falhas (Nature, 2020).

Isso significa que não sentir uma conexão avassaladora nas primeiras semanas não faz de ninguém uma mãe ruim.

A depressão pós-parto afeta cerca de uma em cada sete mulheres, segundo estimativas da OMS, e ainda carrega forte estigma (OMS, 2022).

Muitas mulheres escondem esse sofrimento por medo de serem julgadas como incapazes ou ingratas.

A Folha já noticiou o aumento de grupos de apoio para mães que sentem culpa por não corresponderem ao ideal de maternidade feliz (Folha, 2023).

Vale lembrar que exaustão física e emocional constantes não são sinal de fraqueza, mas de um sistema de apoio insuficiente ao redor dessas mulheres.

A rede de apoio — avós, parceiros, amigos, creches, terapia — não é luxo, é necessidade estrutural para a saúde mental materna.

Falar abertamente sobre as dificuldades da maternidade ajuda a desmontar o isolamento que tantas mães sentem.

Se você é mãe e leu até aqui se reconhecendo na culpa, saiba que ela é comum, mas não é verdade absoluta sobre seu valor.

Amor materno pode conviver com raiva, tédio, saudade da vida anterior, e ainda assim ser amor genuíno e suficiente.

A pressão das redes sociais, cheias de maternidades idealizadas, distorce a percepção do que é normal sentir (Nexo, 2022).

Comparar seus bastidores com o "melhor momento" fotografado de outra mãe é receita para sofrimento desnecessário.

Se este Dia das Mães trouxer sentimentos mistos — saudade de quem partiu, cansaço de quem cuida, culpa de quem não corresponde ao ideal — tudo isso é legítimo.

Terapia pode ser um espaço seguro para nomear esses sentimentos sem medo de julgamento.

Convido as mães que me leem a se tratarem com a mesma paciência que oferecem aos filhos.

Fico por aqui, desejando um maio mais gentil para quem carrega tanto amor e tanto cansaço juntos.

Sobre o colunista
Luísa Silva

Psicóloga clínica, escreve sobre saúde mental, relações e o cansaço dos nossos tempos.

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