DeepSeek: o susto chinês que baixou as ações do Vale do Silício
Uma startup pouco conhecida de Hangzhou lançou um modelo barato e competente, e o mercado de tecnologia tremeu.
Começou como um app gratuito na App Store e terminou derrubando bilhões de dólares em valor de mercado das gigantes de tecnologia americanas. Essa é a história da DeepSeek, a startup chinesa que virou o assunto mais quente de janeiro de 2025.
No dia 27 de janeiro, as ações de empresas como Nvidia, Microsoft e Google despencaram depois que investidores perceberam que a DeepSeek tinha lançado modelos de IA competitivos com os líderes americanos, mas gastando uma fração do dinheiro (CNN Brasil).
O modelo em questão é o DeepSeek R1, especializado em raciocínio, comparável ao o1 da OpenAI em vários testes, só que — segundo a própria empresa — treinado por uma quantia muito menor que os bilhões investidos pelas rivais dos Estados Unidos (Reuters).
O choque não foi só sobre dinheiro: foi sobre a lógica de que IA de ponta exigiria sempre montanhas de GPUs caríssimas. A DeepSeek sugeriu, com dados, que dá para ser criativo e eficiente mesmo sob restrições — a empresa opera sob sanções americanas a chips avançados (The Conversation).
Em poucos dias, o DeepSeek virou o aplicativo mais baixado da App Store nos Estados Unidos, superando o próprio ChatGPT, e ganhou versão em português, facilitando a vida de quem queria testar por aqui (Valor Econômico).
O fato de o modelo ser de código aberto também pesou bastante. Pesquisadores do mundo inteiro puderam baixar os pesos, rodar localmente e confirmar (ou contestar) os números anunciados pela empresa chinesa.
Do lado político, a repercussão foi imediata. Parlamentares americanos levantaram preocupações sobre segurança nacional e possível uso de dados de usuários pelo governo chinês, um debate que lembra muito o que já vimos com o TikTok.
A Casa Branca, sob a nova gestão Trump, chamou o episódio de 'alerta' e usou o caso para justificar ainda mais investimento em infraestrutura de IA doméstica — irônico, já que a narrativa do governo era de menos regulação, não mais gasto público.
Enquanto isso, Sam Altman reconheceu publicamente que a DeepSeek era 'impressionante' e prometeu acelerar lançamentos da OpenAI, sinal de que a concorrência mexeu mesmo com os planos das empresas americanas.
Nvidia, que vive de vender as GPUs mais caras do mundo, teve o pior dia de perdas de valor de mercado da história de uma empresa individual, justamente pelo medo de que treinar IA ficasse mais barato e a demanda por chips topo de linha caísse.
Mas nem tudo era só drama: analistas da Wired e da MIT Technology Review ponderaram que, na prática, ainda existem dúvidas sobre os reais custos de treinamento da DeepSeek e se a comparação é mesmo justa.
De qualquer forma, o episódio provou algo que já vínhamos comentando nesta coluna: a corrida da IA não é mais coisa só de Vale do Silício. China, com suas próprias universidades, capital e talento, está jogando pesado e crescendo rápido.
Ainda em janeiro, Trump assinou ordens executivas revogando parte das diretrizes de segurança em IA estabelecidas por Joe Biden, com o argumento de que elas travavam a inovação americana.
O novo governo também anunciou o projeto Stargate, uma joint venture entre OpenAI, SoftBank e Oracle prevendo até 500 bilhões de dólares em investimento em infraestrutura de IA nos Estados Unidos nos próximos anos.
No campo da robótica, empresas como a Figure e a Boston Dynamics mostraram avanços em robôs humanoides fazendo tarefas domésticas e industriais, um tema que promete ganhar ainda mais espaço ao longo do ano.
A Meta, por sua vez, anunciou planos de investir até 65 bilhões de dólares em infraestrutura de IA em 2025, incluindo um data center gigantesco, reforçando que ninguém quer sair dessa corrida.
No Brasil, o debate sobre regulação de IA avançou no Congresso, com o projeto de lei que tramita desde 2023 ganhando novos capítulos de discussão puxados justamente pelo caso DeepSeek.
Em cibersegurança, pesquisadores identificaram falhas de segurança nos servidores da DeepSeek que expunham dados de usuários, reforçando as preocupações levantadas por autoridades ocidentais (TechCrunch noticiou o achado).
O episódio deixou uma lição para 2025 inteiro: eficiência importa tanto quanto poder bruto, e a vantagem competitiva das big techs americanas não é tão garantida quanto pareciam pensar até pouco tempo atrás.
Fica o gancho para os próximos meses: será que essa pressão vai baratear a IA para todo mundo, inclusive para o brasileiro comum que só quer usar um assistente decente no celular? Vamos acompanhando.
Traduz o noticiário de tecnologia para quem quer entender o impacto no trabalho e na vida cotidiana.
Ver todas as colunas →