Dois anos de corrida da IA: o que mudou de verdade na vida das pessoas
Um balanço de como a inteligência artificial generativa deixou de ser novidade para se tornar parte invisível do cotidiano, com ganhos reais e riscos que seguem em aberto.
Julho de 2026 fecha um ciclo importante: já se passaram cerca de dois anos desde que a corrida da inteligência artificial generativa se intensificou de forma definitiva, e vale a pena olhar para trás com um pouco mais de calma (a MIT Technology Review publicou uma retrospectiva ampla sobre o período).
Nesses dois anos, assistentes de IA deixaram de ser curiosidade tecnológica para se tornar parte do fluxo básico de trabalho de milhões de profissionais, de programadores a advogados, passando por profissionais de marketing e atendimento ao cliente.
Ao mesmo tempo, ficou claro que boa parte das promessas mais ambiciosas, como carros totalmente autônomos ou substituição completa de funções criativas humanas, avançou de forma mais lenta e desigual do que o hype inicial sugeria.
O mercado de chips consolidou a Nvidia como peça central dessa infraestrutura global, mas viu também o fortalecimento de concorrentes como AMD e fabricantes chineses, num movimento gradual de diversificação da cadeia de suprimentos.
As big techs — Google, Microsoft, Meta, Amazon e Apple — gastaram, juntas, centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA ao longo desses dois anos, um volume de investimento que segue sendo debatido em termos de sustentabilidade financeira e ambiental.
Em cibersegurança, a década ficará marcada pela chegada de ataques cada vez mais sofisticados criados com apoio de IA generativa, forçando empresas e governos a investir pesado em defesas igualmente baseadas em inteligência artificial.
No campo regulatório, a União Europeia consolidou a AI Act como principal referência global de governança, enquanto Estados Unidos e China seguiram caminhos mais fragmentados e geopoliticamente carregados de restrições comerciais mútuas.
No Brasil, o novo marco legal de inteligência artificial completou seus primeiros meses de vigência, com balanço ainda inicial, mas já mostrando impacto positivo em transparência de sistemas usados em crédito e processos seletivos de emprego.
No mercado de trabalho, ficou evidente que a IA generativa eliminou algumas funções administrativas repetitivas, mas também criou novas categorias profissionais inteiras, de auditoria de algoritmos a supervisão de agentes autônomos corporativos.
A saúde mental de usuários de chatbots segue sendo tema sensível, com empresas como OpenAI e Anthropic mantendo ajustes constantes em seus modelos para identificar sinais de sofrimento emocional e evitar vínculos afetivos excessivos e potencialmente prejudiciais.
No campo científico, os avanços mais concretos e menos controversos vieram da aplicação de IA em biologia, medicina e ciência de materiais, áreas em que os ganhos práticos já superam claramente as expectativas iniciais.
A disputa por talentos entre grandes empresas de IA segue intensa, com pacotes de remuneração bilionários se tornando quase normais para pesquisadores de ponta, um fenômeno que redesenhou completamente o mercado de trabalho técnico do setor.
Do lado dos consumidores, óculos inteligentes se consolidaram como o formato de hardware mais promissor para uso cotidiano de IA multimodal, embora o smartphone continue sendo, por enquanto, o dispositivo central da vida digital das pessoas.
Em educação, escolas e universidades ao redor do mundo passaram por um processo de adaptação inevitável, redesenhando avaliações e métodos de ensino para conviver de forma mais saudável com ferramentas de IA generativa amplamente disponíveis.
A questão energética se firmou como um dos maiores desafios estruturais da década, exigindo investimentos bilionários em energia nuclear e renovável para sustentar o crescimento contínuo da infraestrutura de data centers de IA.
Os processos judiciais sobre direitos autorais começaram a produzir precedentes importantes, embora o tema ainda esteja longe de ter regras definitivas e amplamente aceitas por toda a indústria criativa e tecnológica.
Do lado geopolítico, a corrida pela liderança em inteligência artificial se consolidou como um dos principais eixos de disputa entre Estados Unidos e China, com efeitos diretos sobre comércio internacional, cadeias de suprimento e alianças diplomáticas.
Para quem acompanhou esses dois anos de coluna, fica a sensação de que a inteligência artificial deixou de ser assunto de especialistas para se tornar, de fato, parte estrutural da vida cotidiana, com ganhos reais de produtividade e criatividade, mas também riscos concretos que ainda exigem vigilância constante.
O desafio para os próximos anos não é mais só sobre criar modelos mais poderosos, é sobre construir instituições, leis e hábitos sociais capazes de conviver de forma equilibrada com essa tecnologia que já não tem mais volta.
Esta retrospectiva fecha um ciclo importante de cobertura, mas a corrida da tecnologia, como sempre, segue adiante — e há muito ainda por escrever sobre os próximos capítulos dessa história.
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