O mês em que a IA virou fogos de artifício

Dezembro de 2024 foi uma enxurrada de lançamentos: o3 da OpenAI, Sora, Gemini 2.0 e a corrida por agentes autônomos.

Por Matheus Abreu· 15 de dezembro de 2024· 6 min de leitura

Se você sentiu que dezembro de 2024 foi maluco em termos de tecnologia, não foi impressão sua. A OpenAI resolveu fazer doze transmissões ao vivo seguidas, um anúncio por dia, num evento batizado de '12 Days of OpenAI' (Estadão).

O prato principal veio quase no fim: o modelo o3, sucessor do o1, prometendo saltos gigantes em raciocínio lógico, matemática e ciência (Época Negócios). A empresa deixou claro que está de olho em algo maior: a tal Inteligência Artificial Geral, ou AGI.

Só que o3 não é mágica de graça. Para rodar nos benchmarks mais difíceis, a OpenAI usou uma quantidade absurda de poder computacional, o que reacendeu a discussão sobre o custo ambiental e financeiro de treinar (e usar) esses modelos gigantes.

Outro destaque foi a chegada da Sora ao público geral, a ferramenta de geração de vídeos a partir de texto que a OpenAI vinha guardando a sete chaves desde fevereiro daquele ano (Estadão). De repente, qualquer pessoa podia digitar uma cena e ver um vídeo curto nascer na tela.

O ChatGPT também ganhou recursos de busca na web liberados para todo mundo, não só assinantes pagantes, o que trouxe a ferramenta para mais perto de um concorrente direto do Google (O Globo).

E teve mais: integração do ChatGPT com o WhatsApp, permitindo mandar mensagem direto para o assistente sem precisar abrir aplicativo nenhum — uma jogada esperta para alcançar quem nunca baixou o app.

Enquanto a OpenAI fazia a festa, o Google não ficou parado. No dia 11 de dezembro, a empresa apresentou o Gemini 2.0, descrito por Sundar Pichai e Demis Hassabis como o modelo pensado para 'a era dos agentes de IA' (Google Blog).

A ideia de 'agentes' virou o mantra do fim de 2024: não bastava mais um chatbot que responde perguntas, o objetivo agora é ter sistemas que executam tarefas sozinhos, navegam em sites, preenchem formulários e tomam decisões em nome do usuário.

O Google lançou o Project Mariner, um protótipo de agente que navega no navegador Chrome como se fosse um assistente com mãos e olhos digitais, e o Project Astra, seu assistente multimodal experimental.

Do lado da concorrência chinesa, empresas como a Alibaba e a própria DeepSeek (que ainda ia explodir de vez em janeiro) já mostravam modelos de código aberto que rivalizavam em qualidade com produtos ocidentais, a um custo de treinamento muito menor.

A Meta também seguiu firme com sua estratégia de código aberto, atualizando a família Llama e reforçando o discurso de Mark Zuckerberg de que modelos abertos vão democratizar a IA (The Verge tem cobrido esse debate com frequência).

No campo da regulação, a União Europeia começou a aplicar as primeiras obrigações da AI Act, a lei que classifica sistemas de IA por nível de risco. Dezembro marcou o início da contagem regressiva para empresas se adequarem (Reuters).

Nos Estados Unidos, o clima era outro: a expectativa da posse de Donald Trump em janeiro já fazia investidores e executivos de tecnologia especularem sobre uma regulação mais frouxa e um ambiente mais favorável a grandes investimentos em data centers.

Falando em data centers, a corrida por energia virou notícia recorrente. Microsoft, Google e Amazon anunciaram acordos bilionários com usinas nucleares para garantir eletricidade suficiente para seus servidores de IA (Financial Times vinha noticiando isso desde outubro).

No mundo dos gadgets, a Apple seguiu distribuindo aos poucos o Apple Intelligence, seu pacote de recursos de IA, ainda incompleto e alvo de críticas por chegar atrasado e limitado em comparação a concorrentes (The Verge).

A Siri renovada, prometida com integração ao ChatGPT, ainda não tinha aparecido de verdade, e crescia a impressão de que a Apple estava, pela primeira vez em anos, correndo atrás do prejuízo tecnológico.

Em cibersegurança, dezembro trouxe alertas sobre o aumento de golpes usando deepfakes de voz e vídeo para fraudes financeiras, um problema que promete só crescer conforme as ferramentas generativas ficam mais realistas e acessíveis.

No mercado de trabalho, relatórios do fim de ano mostravam empresas de tecnologia anunciando mais cortes de vagas, especialmente em áreas administrativas, ao mesmo tempo em que abriam postos ligados a IA — uma reorganização e tanto (Forbes fez um retrospecto detalhado do ano).

Fechando 2024, ficou claro um padrão: a inteligência artificial deixou de ser promessa e virou infraestrutura. Todo mundo — de gigantes de tecnologia a governos — estava correndo para não ficar para trás.

E olha que 2025 mal tinha começado. Como você vai ver na próxima coluna, o ano novo reservava um daqueles terremotos que ninguém viu vindo: um nome chinês que ninguém conhecia direito ia abalar Wall Street em poucos dias.

Sobre o colunista
Matheus Abreu

Traduz o noticiário de tecnologia para quem quer entender o impacto no trabalho e na vida cotidiana.

Ver todas as colunas →