Ecossistema brasileiro de IA aplicada à saúde atrai capital estrangeiro

Draiven, Telepatia e parceria Dadosfera-UFMG mostram diversidade de apostas nacionais em inteligência artificial

Por Renata Coutinho Falcão· 05 de outubro de 2025· 7 min de leitura
Ecossistema brasileiro de IA aplicada à saúde atrai capital estrangeiro

Foto: Christina Morillo / Pexels

Decisões corporativas mais rápidas com IA

A startup paulista Draiven, fundada por Carlos Schmiedel, Carlos Pereira e Dhiogo Corrêa, anunciou em outubro de 2025 a captação de R$ 750 mil apenas dois meses após o início de suas operações. A empresa desenvolveu uma plataforma que usa inteligência artificial para transformar grandes volumes de dados corporativos em recomendações objetivas de decisão, mirando um problema comum a médias e grandes empresas brasileiras: o excesso de dados disponíveis e a dificuldade de transformá-los em ação prática e rápida.

O SUS ganha uma interface em linguagem natural

Em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a startup de dados Dadosfera lançou em outubro uma ferramenta inédita de inteligência artificial capaz de responder perguntas sobre bases do Datasus, o sistema de dados do SUS, usando linguagem natural em vez de consultas técnicas complexas. O projeto tem potencial para democratizar o acesso a informações de saúde pública, hoje concentradas majoritariamente entre pesquisadores e gestores com treinamento técnico específico em análise de dados, ampliando o alcance a jornalistas, gestores municipais e à própria população.

Capital estrangeiro mira o mercado de saúde brasileiro

O Brasil também recebeu naquele mês a chegada da Telepatia AI, startup fundada em Stanford que desenvolveu um "copiloto clínico" de inteligência artificial — descrito por seus fundadores como um assistente equivalente a um médico residente, capaz de apoiar profissionais de saúde na triagem e no diagnóstico inicial de pacientes. A empresa captou US$ 9 milhões especificamente para expandir sua operação no Brasil, atraída pelo tamanho do sistema público de saúde do país e pela escassez crônica de médicos em regiões afastadas dos grandes centros urbanos.

Um padrão de especialização setorial

Os três casos de outubro de 2025 ilustraram uma tendência mais ampla do ecossistema de IA brasileiro: em vez de tentar competir diretamente com os grandes laboratórios de modelos de fundação — tarefa que exige capital e infraestrutura fora do alcance da maioria das startups locais —, empreendedores brasileiros passaram a concentrar esforços em aplicações verticais, integrando modelos já existentes (como os da OpenAI, Google e Anthropic) a problemas específicos de setores como saúde, jurídico e finanças.

Desafios que persistem

Apesar do otimismo, investidores e fundadores ouvidos pela imprensa especializada brasileira em outubro de 2025 seguiam apontando obstáculos recorrentes: custo elevado de acesso a APIs de modelos internacionais, cobradas em dólar; escassez de profissionais especializados em engenharia de IA no país; e a ausência, até aquele momento, de um marco regulatório definitivo que desse segurança jurídica a investimentos de maior porte. Ainda assim, o volume crescente de captações ao longo do segundo semestre de 2025 sinalizava que o capital de risco brasileiro — e também estrangeiro — via na aplicação prática de IA um dos poucos setores de tecnologia nacional em franca expansão, mesmo em meio a um cenário macroeconômico desafiador.

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